sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

A racionalidade (falta?) de quem nos emprestou dinheiro.

O Ricardo Mendes pergunta-me num comentário se quem emprestou dinheiro a Portugal (no guterrismo / sócratismo) para podermos viver acima das nossas possibilidades não terá sido irracional.
Sendo que acha compreensível o "Acabou-se a Festa", já não considera aceitável que alguma vez nos tenham emprestado dinheiro para fazer festa. Estes empréstimos violariam o principio da Escola Austríaca de que cada um tem que se desenrascar com o que tem disponível (quem não tem dinheiro, não tem vícios).
Como esta questão já me foi posta por outras pessoas e o Ricardo além do comentário (que eu já tinha lido) me mandou um e-mail, estou obrigado a responder a esta questão.

A Escola Austríaca foi o grande pilar  teórico do combate à economia planificada / comunista. É interessante que muitos dos modelos teóricos da economia de mercado são resolvidos usando um "planificador centralizado" pelo que a economia planificada deveria funcionar bem. Mas o que identificaram os autores da Escola Austríaca é que o "planificador centralizado" apenas funciona bem sob o pressuposto de haver informação perfeita sobre os gostos e preferências dos indivíduos. Como isso não existe, apenas o mercado com o seu sistema de ajustamento dos preços relativos é capaz de promover uma afectação eficiente dos recursos escassos.
A Escola Austríaca foi mais importante na derrota do comunismo que todas as bombas atómicas juntas.

Fig. 1 - Escudo do Império Austro-Hungaro

Há racionalidade em emprestar e nada receber.
Vamos supor um aforrador que tem 1000€ que pode emprestar ao país X (a Alemanha) ou ao país Y (Portugal).

A decisão no princípio do ano.
Hoje o aforrador sabe que o país X paga 5%/ano de taxa de juro e que cumpre com certeza absoluta as suas obrigações.
Sabe também que o credor Y (Portugal) tem apenas 50% de probabilidade de cumprir as suas obrigações (vai ser atirada uma moeda ao ar e, se cair cara, Y paga tudo mas, se cair coroa, não paga nada).
Será de pensar que o racional é o aforrador emprestar todo seu dinheiro a X recebendo ao fim do ano 1050€.

Mas o Y precisa do dinheiro.
Então, o Y vai oferecer uma taxa de juro maior que a do X suficientemente atractiva para captar as poupanças do aforrador.
O Y vai oferecer 110%/ano de forma que, se sair cara, paga 2100€ mas, se sair coroa, não paga nada.
Se o aforrador emprestar a Y espera receber, em média,
     2100€x50% + 0€x50% = 1050€

O aforrador espera receber, em média, o mesmo
No momento em que decide emprestar, princípio do ano, o investidor espera receber no fim do ano, em média, o mesmo, 1050€, quer empreste a X quer a Y.

E no fim do ano?
Se o aforrador emprestou a X, vai receber sempre 1050€.
Mas se emprestou a Y e sair "cara", vai receber 2100€ (e fica rico) e; se sair coroa, não recebe nada (e fica pobre).

Fig. 2 - Venha cá sr. professor que se me der 500€, vou-o amar e ser-lhe fiel para sempre (i.e., até que apareça alguém que me dê outros 500€).

Qual será a melhor decisão?
Ambas as decisões são racionais e não é por no fim do ano não receber nada que o aforrador decidiu de forma irracional.
Com a informação que tinha disponível no momento da tomada de decisão (no principio do ano), dos dois empréstimos resultava  o mesmo ganho médio.
Agora que o Y bancarrotou, foi azar e não irracionalidade do aforrador.
Depende do comportamento do aforrador face ao risco julgar se emprestar a X a 5%/ano é melhor que emprestar a Y a 110%/ano ou vice-versa.
Se o aforrador tiver medo do risco, empresta ao X.
Se o aforrador for amante do risco, empresta ao Y.
Se o aforrador for neutro ao risco, empresta metade a cada um*.
*Corrigiu-me o meu amigo Paulo S. que, sendo esta uma situação de indiferença (neutro ao risco e ganho esperado igual), é indeterminado onde o investidor vai aplicar o seu dinheiro. Pode aplicar uma proporção qualquer (entre 0% e 100%) em X e a remanescente em Y (8Jan2013). 

É como o Euromilhões
Uma pessoa investe 2€ e pode ganhar 100milhões€ (com uma probabilidade muito pequena) ou nada (com uma probabilidade muito grande).
Quando, no sábado seguinte, o investidor vê na TV que os seus números não saíram, ninguém diz que o seu comportamento foi irracional.

É a vantagem das mulheres feias e gordas.
Dizia o meu pai que um homem que tivesse uma mulher feia e gorda vivia descansado.
Quanto às mulheres bonitas e jeitosas, se por um lado, era bom, por outro lado, seria muito assediada tendo o risco de, algures na sua vida, arranjar um amante.
Haveria que ponderar os riscos com as vantagens.
Terminava com a questão:
- Será melhor comer uma broa rija e bolarenta sozinho ou um pão-de-ló acabadinho de sair do forno com os amigos?

Fig. 3 - Mulher feia nunca engana o marido
A diversificação do risco. 
Todos os investimentos têm risco, uns mais  e outros menos.
E já referi que a remuneração que os investimentos com risco mais elevado prometem é maior que o dos investimentos com menor risco (que se pode não concretizar).
Além disso, a diversificação (o misturar de vários investimentos) faz diminuir o risco global.
Por exemplo, se eu investir 500€ num negócio de gelados e 500€ noutro negócio de camisolas, o prejuízo do negócio dos gelados nos dias frios é compensado pela venda de camisolas e vice-versa,

Vamos supor uma Segurança Social privada.
A nossa segurança social tem dois problemas.

Primeiro - não está equilibrada.
O que pagamos (mais os nossos patrões) para a S.S. não é suficiente para pagar as reformas futuras que as regras de cálculo actual nos prometem.

Segundo - a regressão demográfica.
Cada vez nascem menos pessoas pelo que no futuro o número de trabalhadores por reformado será pequeno e imcapaz de, com os seus descontos, pagar-nos reformas razoáveis. 

A diversificação do risco da S.S.
A SS deveria expandir o seu "negócio" aos países que têm crescimento económico e demográfico.
Em vez de usar os nossos descontos para pagar reformas milionárias, cortava isso pela metade e, com uma parte substancial das nossas contribuições, financiava as escolarização das crianças de Moçambique.
Quando nos reformássemos, as crianças moçambicanas ao amortizar a ajuda da S.S. geravam recursos para pagar uma parte das nossas reformas.

fig. 4 - Os fundos de pensões dos países em regressão demográfica deveriam investir nas crianças de África.

O Mundo é muito heterogéneo.
No Mundo há uma multiplicidade de tipos de investidores que, juntamente com a necessidade de diversificação do risco, faz com que mesmo o mais arriscado dos negócios (vender armas a crédito ao Assad da Síria) tenha investidores disponíveis para aplicar o seu dinheiro. E sempre de forma racional.
Mesmo hoje, existe quem esteja disponível para emprestar dinheiro ao Vale e Azevedo (com a esperança de vir a receber milhões mas com uma probabilidade pequena).

A análise feita à posteriori nunca pode ser usada para julgar da racionalidade da decisão tomada à priori porque, entretanto, a quantidade de informação aumentou. Se soubesse o que sei hoje (os números do euromilhões) ontem a minha decisão teria sido completamente diferente e hoje estaria multi-milionário.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Diogo disse...

O contraditório sobre este post ao professor Cosme Vieira:

Cosme: «apenas o mercado com o seu sistema de ajustamento dos preços relativos é capaz de promover uma afectação eficiente dos recursos escassos»

Diogo: O mercado entregue a si próprio seria como o trânsito de uma grande cidade sem sinais nem polícias de transito: um caos absoluto onde ninguém andaria um milímetro.


Cosme: «A nossa segurança social tem dois problemas. Primeiro - não está equilibrada.
1 - O que pagamos (mais os nossos patrões) para a S.S. não é suficiente para pagar as reformas futuras que as regras de cálculo actual nos prometem. 2 - Segundo - a regressão demográfica. Cada vez nascem menos pessoas pelo que no futuro o número de trabalhadores por reformado será pequeno e incapaz de, com os seus descontos, pagar-nos reformas razoáveis.
3 - A diversificação do risco da S.S. A SS deveria expandir o seu "negócio" aos países que têm crescimento económico e demográfico. Em vez de usar os nossos descontos para pagar reformas milionárias, cortava isso pela metade e, com uma parte substancial das nossas contribuições, financiava as escolarização das crianças de Moçambique. Quando nos reformássemos, as crianças moçambicanas ao amortizar a ajuda da S.S. geravam recursos para pagar uma parte das nossas reformas.

Diogo: Cosme incorre aqui no chamado “erro da paralisação da tecnologia”. Com a evolução tecnológica, cada vez é necessário menos gente a trabalhar. No princípio do século XX, 60% dos americanos trabalhavam na agricultura. No princípio do século XXI, eram 4%. O mesmo se está a repetir, em ritmo cada vez mais acelerado, em relação à indústria e aos serviços (mesmo os de investigação).

A prova está hoje à vista com a «Crise»: produz-se cada vez menos, não porque haja falta de trabalhadores, não porque haja falta de tecnologia, não porque haja falta de capital, não porque haja falta de matérias-primas, não porque não haja pessoas a necessitar dos produtos. Hoje, produz-se cada vez menos porque os consumidores não têm dinheiro para comprar aquilo que necessitam. E não têm dinheiro porque ou ganham cada vez menos ou estão desempregados.

aroso disse...

Diogo,

Curioso que mencione o tema do trânsito caótico porque ainda este mês me questionei sobre ele.
Estive na Índia, onde apesar de existirem sinais de trânsito domina o caos - motas em contra-mão, três faixas onde só deviam existir duas, vacas a passar, e até (imagine-se!) gente a dormir no meio da rua. Mesmo nesta confusão toda, o trânsito flui a uma velocidade razoável e sem grandes acidentes. Não será suficiente para provar que o caos é superior ao trânsito organizado, mas pelo menos prova que não é verdade que "ninguém andaria um milímetro".

Já agora, recomendo que procure o conceito de "shared space" que está a ser testado em algumas cidades europeias: tiraram todos os sinais e separadores de trânsito, e pelos vistos a segurança aumentou.

Quanto à segunda parte do seu post, acho que se baralhou: se o progresso tecnológico fosse o principal responsável pelo actual desemprego, então teria que ser verdade que o pib tivesse aumentado ou se tivesse mantido (como no exemplo americano que descreve), mas nunca que tivesse diminuído. Corrigindo a sua frase final, os consumidores não têm dinheiro porque produzem menos do que o que estão habituados a consumir.

Diogo disse...

Caro Aroso,

Nunca estive na Índia mas conheço várias pessoas que já lá estiveram e que ficaram impressionadas com a fluidez do «trânsito quase completamente desregulado». No entanto, por mais hábeis que sejam os condutores indianos, para o mesmo número de automóveis (que não de motorizadas e bicicletas), é completamente impossível que circulem à velocidade de um trânsito regulado.

Quanto ao PIB, existe hoje uma grande baralhação: Um iate privado de dez milhões de contos vale mais, em termos de PIB, do que 3 mil automóveis de gama média. No entanto, o resultado económico dos 3 mil automóveis pode ser mil vezes maior do que o do iate privado. Por outro lado, os jogos financeiros (ou o jogar à lerpa), pouca produção real traz.

Quanto à produção, quanto mais inteligentes as máquinas forem, menos trabalho produtivo sobrará para os humanos. Até às máquinas se apoderarem completamente do trabalho produtivo, e enquanto os «economistas pensarem em termos de século XX, o homem viverá de um salário que será cada vez menor porque o exército de escravos está continuamente a aumentar (e, portanto, os salários descerão).

Mas se pensarmos num século XXI já razoavelmente desenvolvido, chegaremos à conclusão de que o progresso tecnológico tomará conta de todo o processo produtivo. Ao homem «restará» usufruir dos bens que a tecnologia (sempre em evolução exponencial) lhe proporcionar.

Abraço e Bom Ano

Económico-Financeiro disse...

O PIB é diferente do Capital.
O PIB é um fluxo. É a produção de riqueza num ano. Por exemplo, 100€/ano.
É equiparavel a um salário.

O Capital é um stock. Os iates e os carros (capital) são unidades monetárias, por exemplo, 100€.
É equiparável a uma herança.

Então, o PIB não é comparável com o Capital porque têm unidades diferentes (100€/ano é diferente de 100€).

Em Portugal, a soma de todo o Capital estará entre 450MM€ e 550MM€ (não inclui os terrenos).

O PIB é 170MM€/ano do qual cerca de 30MM€/ano são depreciação de Capital.

A divisão do PIB.
Se são as máquinas a produzir, o ganho vai para os donos das máquinas, se é a mão de obra, o ganho vai para os trabalhadores.
Como para fazer as máquinas também é necessário mão de obra e a maioria tem capacidade de impor a sua vontade à minoria, nunca haverá o risco de o PIB cair na mão de uma minoria e a maioria ficar na pobreza.

pc

Joao F. disse...

Professor,


"Com a informação que tinha disponível no momento da tomada de decisão (no principio do ano), dos dois empréstimos resultava o mesmo ganho médio.
Agora que o Y bancarrotou, foi azar e não irracionalidade do aforrador.
Depende do comportamento do aforrador face ao risco julgar se emprestar a X a 5%/ano é melhor que emprestar a Y a 110%/ano ou vice-versa."

Se o ganho médio era igual, não seria racional optar por emprestar a Alemanha em detrimento de Portugal?

Económico-Financeiro disse...

Estimado João F.,
Em caso de igual ganho médio prefere o activo de menor risco se for uma pessoa avessa ao risco.
O neutro ao risco vai ficar indiferente podendo tanto optar (por moeda ao ar) pelo activo com risco ou sem risco ou por uma proporção qualquer dos dois.
pc.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code